O ar está pesado, infiltra-se nos meus pulmões uma ânsia de correr pelas praias e olhar o mar infinito, esquecendo-me até do nome que sai entre os meus lábios como uma oração.Existe uma prece que repito diariamente, que um dia as coisas ficarão mais leves, mais fluídas e naturais.
Na minha cabeça este pensamento rodopia sem parar, sendo uma mentira que conto a mim mesma para aguentar o peso que vem do ar, mas que ocupa a mente, o corpo, o coração.
O nome que alimenta a prece cria enredos e faz promessas. Promessas bonitas, cheias de palavras e reflexões e sonhos. Oh, tantos sonhos que cria sustentados em nuvens com castelos em seu redor, alimentando também a minha ânsia de um conto de fadas. O meu conto de fadas que, por fim, se torna real.
Nada disto acaba por acontecer.
O ar está pesado.
Quero mover-me à velocidade da luz, para que possa captar todos os raios de cada minuto de cada dia. Eles existem, eu vivo-os, portanto sei que são reais. Será que minto a mim mesma? Será que os raios na verdade pertencem a vários olhares, a vários momentos, a várias mãos, acima de tudo, a vários toques, sentido o mesmo brilho que eu.
Não me movo à velocidade da luz.
O ar está pesado.
Quero acreditar no que diz a minha prece, quero acreditar o que diz aquele nome, quero acreditar para que não me desmorone como um castelo naquelas nuvens de sonhos. Esses vão sendo destruídos, passo a passo, segundo a segundo, por mais teias de palavras que não batem certo ou momentos que acabam por diferir das promessas.
O ar está pesado.
Existe uma raiva silenciosa no meu olhar, as minhas feições fecham e o meu coração sela, dando origem a um mar de emoções que se sobrepõem ao que sinto pela pessoa que atravessa o meu campo de visão.
Sinto que quero gritar e explodir e fazê-lo sentir o que sinto para que não me sinta tão sozinha. É um sentimento egoísta.
Ao longo das últimas semanas as pessoas em meu redor tem despejado o que sentem, pedem conselhos, exigem atenção. Eu dou, dou dou. Eu sou, sou, sou. E no fim do dia o que resta de mim está mirrado.
Tenho sonhos de alguém que possa silenciar tudo isto, que o seu toque possa funcionar como um botão "mute" automático para todo este mundo de ruído e confusão.
Mas ninguém tem esse efeito. Toda a gente contribui para o cumulativo.
Então fecho a porta, as feições e o olhar.
Cansada de ter de ser a compreensiva, acumulo raiva no lugar da empatia, enquanto permaneço a sorrir e dar conselhos aos que me rodeiam.
E quando a pessoa que quero que silencie tudo o resto chega, deixo cair o muro, e as emoções caem como torrões de água. Avassaladores, injustos e potentes. Com toda a sua força exponenciada pelas trancas de chaves que este role de sentimentos levaram nos últimos tempos.
Ele não liga o "mute", sente-se injustiçado, magoado... incompreendido. Está a fazer um esforço, a ceder em barreiras que nunca pensou ceder. E, acima de tudo, sente a exigência do meu lado que é em demasia. Porque é.
Sou egoísta porque o "mute" não deveria depender de outra pessoa. Deveria surgir naturalmente. Mas no fundo sou uma acumuladora. Não de bens, não de pessoas, mas de sentimentos.
Quero silêncio tranquilo, serenidade existencial, quero olhar sem raiva e sentir sem pudor. Sinto-me presa numa caixa muito pequenina, sinto-me sem ar e só gritando e explodindo consigo libertar-me.
Estou confusa e triste. Sei o que é amar, sei o que quero, tenho noção da minha escolha. Foi consciente, foi plena, foi correta.
Precisava apenas de um "mute" de todo o ruído para pensar de forma fluída sem acumular.
Quero apenas amar.